joao-bosco


Ouvi João Bosco pela primeira vez em minha casa, quando estava escolhendo o artista novo, desconhecido, que viria gravar o outro lado do compacto simples do Disco de Bolso. Achava que seria meio impossível encontrar alguém que tivesse fôlego para encarar o artista consagrado do outro lado do disco, Tom Jobim, com Águas de Março, temendo que viesse a jogar o desconhecido numa "gelada". Foi um susto. Qualquer uma das músicas que ele apresentou naquele dia, poderia entrar no disco. Depois de muita conversa e controversia, resolvemos ficar com Agnus Sei, considerando sua parceria com outro craque, Aldir Blanc. Depois do disco pronto, Tom Jobim pediu para ouvir o outro lado. Depois de uma grande pausa, olhou pra mim e disse: Ô Sergio, você está querendo me derrubar! Cobriu o João de elogios. Rimos muito, ainda sem saber que aquele seria um disco histórico, pois lançava Aguas de Março, considerada posteriormente como a música do século e a descoberta de "um tal de João Bosco".

Não vou me ater à nossa convivência cercada de ótimos momentos, pois seria assunto para um livro. Quero fazer uma análise, isenta, do artista. E digo simplesmente, que se trata de um fenômeno. Sua melodia, seu ritmo, sua harmonia, seu censo de arranjo, ultrapassam os níveis aceitáveis pelos mestres. Seu violão é eletrizante, e suas levadas antológicas por descreverem o ritmo brasileiro "nunca dantes navegados", comprovando a diversidade de nossa rítmica de maneira rica e surpreendente. Sua voz alinhava todo esse universo sonoro com modesta intervenção, dando chance para que os versos ecoem com a mensagem pretendida. Na forma final, ao juntar todos estes valores num palco, é a explosão de um verdadeiro gênio musical da raça. É o Brasil se mostrando forte, ancorado em suas verdadeiras origens, ostensiva e orgulhosamente assumido. Ao ouvi-lo, da gosto de ser brasileiro."

SERGIO RICARDO

The first time I heard João Bosco, I was at home selecting a new unknown artist, who would record the other side of the single for the Disco de Bolso project. I thought almost impossible finding someone who had the guts to face the renowned artist on the other side of the record - Tom Jobim singing Águas de Março - and fearful of putting the unknown artist in a no-win situation. It was scary. Any song he presented that day could be part of the record. After a long conversation and controversy, we’ve decided to stick with Agnus Sei, considering his partnership with another ace, Aldir Blanc. When the single was already recorded, Tom Jobim asked to listen to the other side. There was a long pause, then he stared at me and said: ‘Come on Sergio, are you trying to pull me down?!’ He praised João. We burst out laughing, not yet aware that this single would be a historical record, due to the launching of Aguas de Março, later on regarded as the song of the Century, and the discovery of “a certain João Bosco".

I will not mention our friendship, surrounded by wonderful moments, since that could perhaps serve as a subject for an entire book. I wish to provide a fair analysis of the artist. And I simply say he is a phenomenon. His melodies, his rhythm, his harmony, his sense of arrangement surpass the levels accepted by masters. His guitar is thrilling, and his swing distinguished for describing Brazilian ‘never before explored’ rhythms, once again corroborating the diversity of our rhythms through a rich and striking work. His voice aligned such sonorous universe with humble intervention, giving lyrics a chance to reflect the intended message. Fundamentally, when putting all these values on a stage, the explosion of a truly musical genius could be seen. It’s a strong Brazil emerging, showing its deep-rooted origins, proudly and openly assuming its role. Listening to him make us proud of being Brazilians.

 

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